Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

Fernando Pessoa



7 de abr de 2010

Ilse Kleyn



Letras no seu (meu) corpo

Em homenagem a ela e, aproveitando, a Chico Buarque de Holanda


É lindo o seu belo e majestoso corpo
é possível escrever em sua pele
o nome da gente e dos que estão por vir
É bom apagar a narrativa somente no banho
esfregando as letras que saem em doces suspiros
Letras que não deveriam sair
Desejo é que elas finquem moradia no corpo, tal como as cicatrizes e as tatuagens.

Somente a poesia pode revelar as curvas das avenidas que esconde
Lembram as montanhas de Diamantina
O colorido lá longe do pôr do sol
A lua de Salvador
O mar espumado de São Luiz
A areia fina de Cabo Frio
O fogo eterno que queima a terra no sertão

Em sua pele descanso minha pena
É inevitável o arrepio que causa minha escrita fraca
Ela me abate e as letras vivas como as veias se movimentam.
O corpo se vira para dar passagem à tinta fresca,
ao carinho divino e a compaixão da reciprocidade.

Remexendo o corpo vai dando lugar a novas frases e contundentes esculturas,
novas e novas metáforas entram pelos poros.
Vejo os detalhes da vida e no retirar das letras com água ainda morna,
no banho cheio de espumas, a vida não se esvai.
De certa forma marquei sua pele, o espírito sentiu e o coração também.
Minha pena secou e deixou para sempre a saudade no vazio inacabado de minha alma.



Lúcio Alves de Barros